[Resenha] O papel de parede amarelo

o papel de parede amarelo

Eu precisei reler esse conto pra falar dele aqui. Mais especialmente por conta do último parágrafo.

Já nas primeiras linhas desconfiei do que a protagonista e narradora do conto sofria. Mas não falaremos de achismos diagnósticos.

A personagem é uma mulher, sem nome citado, que acabou de ter um bebê e é diagnosticada pelo marido médico, como tendo uma depressão nervosa com tendências histéricas e a deixa confinada num quarto a fim de estabiliza-la.

Além da privação do contato humano, ele contraindica qualquer esforço físico ou intelectual. John, o marido, desaprova inclusive o seu hábito de relatar em um diário o curso de seus dias.

A depressão nervosa aliada ao confinamento exacerbou seus conflitos mentais e como uma estratégia de fuga ela se torna obcecada com o papel de parede do quarto.

O texto todo é muito angustiante, principalmente nos momentos em que ela relata a descrença da família e amigos de que realmente esteja doente, desencorajam suas ações e riem-se dela.

O papel de parede amarelo me lembrou muito uns textos e videos muito compartilhados nas redes sociais, dizendo como devemos nos comportar diante de uma pessoa com depressão e do que não dizer pra ela.

Isso é frescura. Você precisa se esforçar. Tá nessa porque quer. Não entendo porque você está sempre tão triste, sua vida é perfeita.

Esses são alguns lugares comuns, tão século XIX e ao mesmo tempo tão atuais, que encontramos em O papel de parede amarelo. Não com essas palavras, lógico, mas com esse sentido.

Charlotte Perkins Gilman foi uma romancista e contista americana, nascida em 1860. Alguns estudiosos consideram O papel de parede amarelo uma manifestação feminista da autora contra à redução da mulher ao ambiente doméstico, já que mulheres eram considerados frágeis e incapazes. Acredita-se também que este conto seja semi-autobiográfico. 

8 de março e as causas que precisamos abraçar

dia internacional da mulher

O dia 8 de março não é sobre beleza, sobre a maternidade ou sobre como as mulheres conseguem dar conta de tudo em cima de um salto 15.

É sobre violência doméstica, é sobre assédio em todas as suas formas, é sobre estupro, sobre mortes, sobre desrespeito e desmerecimento. É sobre “ela é louca”. Ou sobre “tá naqueles dias, né?”. Mas se você preferir pode ser sobre “ela é assim porque é mal comida”. Perdoem-me o linguajar chulo, mas é daí pra baixo no mundo real.

O dia 8 de março é sobre o direito ao voto.

É sobre conquistas femininas que custaram sangue, literalmente.

Portanto, se você não ganhar uma florzinha neste dia, não se chateie. Não pense que alguém te esqueceu. Lembre-se apenas da felicidade que é ter seu próprio carro, sua casa própria, seu salário. Lembre-se de quão bom é poder escolher seus representantes políticos, a roupa que vai usar, o prato que vai comer. Alegre-se por ter escolhido se casar, ou não. Por ter escolhido ter filhos, ou não. Por ter escolhido ser dona de casa, ou não.

Alegre-se por saber ler e escrever.

E isso ainda é pouco.

Aproveite a data e leia sobre as mulheres que morreram para que você pudesse escolher. Sobre mulheres que perderam partes do seu corpo para te dar voz.

Aproveite para exercitar a empatia pelas mulheres que ainda precisam cobrir seus corpos para sair à rua, pelas mulheres que ainda não tem acesso à educação. Pelas mulheres que ainda tem seus corpos mutilados. Todos esses males simplesmente porque nasceram mulheres.

Reforce o coro das mulheres que gritam pela igualdade, pelo respeito, pela dignidade, pelo fim do racismo. E se você não quiser ou não puder gritar, não tente silenciar quem luta por essas causas. Afinal, as conquistas serão para todas.

Que o maior presente pelo Dia Internacional da Mulher seja o respeito nos 365 dias do ano.