[Resenha] Um teto todo seu

um teto todo seu

Virginia Woolf foi convidada a palestrar sobre mulheres e ficção. E ela pegou um caminho diferente do que esperavam. Fez uma viagem no tempo até os séculos XVI, XVII e traçou um panorama sobre a vida das mulheres durante o período. O mesmo fez com os séculos seguintes. Tudo isso revisitando as obras literárias publicadas durante esses anos.

A partir disso ela vai traçando um perfil de participação da mulher na sociedade inglesa, da total ignorância e subserviência até os dias que começou a ler e escrever e a partir daí desejou ingressar no mundo das letras. Elas não recebiam estímulo intelectual, eram apenas domésticas, sem nenhum momento para elas mesmas, sempre dedicadas ao bem-estar do marido, pai, irmão. Sempre servis, não tinham tempo, espaço nem dinheiro para produzir nem consumir literatura.

um teto todo seu.

Neste livro a autora aponta todas as dificuldades e preconceitos enfrentados por essas mulheres. Compara as obras das grandes escritoras inglesas entre si e entre escritores. E conclui afirmando, já percorrendo a literatura contemporânea do seu tempo, que mesmo sem a estrutura ideal para a criação as mulheres conseguiam produzir grandes romances, imaginem do que seriam capazes em condições favoráveis.

No último capítulo, Virgínia convida as mulheres a criarem, a passarem por cima da menor liberdade intelectual que possuem e a “escreverem todo o tipo de livro, não hesitando diante de nenhum tema, por mais trivial ou vasto que seja.

“Ouço-me dizer breve e prosaicamente que é muito mais importante ser você mesma do que qualquer outra coisa. (…)Pensem nas coisas por si mesmas.”

Não foi nada fácil ler esse livro. O tempo todo eu pensava que deveria ler outra obra, não estava me conectando com a escrita de Virginia. O mesmo problema que encontrei nos outros livros da autora que tentei ler. Muita digressão, eu me perdia, às vezes tinha que voltar um parágrafo inteiro. Apenas nos últimos capítulos consegui perceber onde Virginia queria chegar e foi lindo.

Agora que já conheço melhor o estilo narrativo de Virginia Woolf, voltarei à leitura de Mrs Dalloway. Questão de honra! Até porque esse livro era pra ser um livro viajante e está parado comigo há uns 3 ou 4 anos.

um teto todo seu virginia woolf

Um teto todo seu é um livro importante, muito relevante, haja vista tantos obstáculos e escárnios que as mulheres de hoje ainda encontram quando se propõem a criar algo ou simplesmente a lutar por seu lugar no mundo.

Post especial para o Desafio Literário Skoob 2016.

8 de março e as causas que precisamos abraçar

dia internacional da mulher

O dia 8 de março não é sobre beleza, sobre a maternidade ou sobre como as mulheres conseguem dar conta de tudo em cima de um salto 15.

É sobre violência doméstica, é sobre assédio em todas as suas formas, é sobre estupro, sobre mortes, sobre desrespeito e desmerecimento. É sobre “ela é louca”. Ou sobre “tá naqueles dias, né?”. Mas se você preferir pode ser sobre “ela é assim porque é mal comida”. Perdoem-me o linguajar chulo, mas é daí pra baixo no mundo real.

O dia 8 de março é sobre o direito ao voto.

É sobre conquistas femininas que custaram sangue, literalmente.

Portanto, se você não ganhar uma florzinha neste dia, não se chateie. Não pense que alguém te esqueceu. Lembre-se apenas da felicidade que é ter seu próprio carro, sua casa própria, seu salário. Lembre-se de quão bom é poder escolher seus representantes políticos, a roupa que vai usar, o prato que vai comer. Alegre-se por ter escolhido se casar, ou não. Por ter escolhido ter filhos, ou não. Por ter escolhido ser dona de casa, ou não.

Alegre-se por saber ler e escrever.

E isso ainda é pouco.

Aproveite a data e leia sobre as mulheres que morreram para que você pudesse escolher. Sobre mulheres que perderam partes do seu corpo para te dar voz.

Aproveite para exercitar a empatia pelas mulheres que ainda precisam cobrir seus corpos para sair à rua, pelas mulheres que ainda não tem acesso à educação. Pelas mulheres que ainda tem seus corpos mutilados. Todos esses males simplesmente porque nasceram mulheres.

Reforce o coro das mulheres que gritam pela igualdade, pelo respeito, pela dignidade, pelo fim do racismo. E se você não quiser ou não puder gritar, não tente silenciar quem luta por essas causas. Afinal, as conquistas serão para todas.

Que o maior presente pelo Dia Internacional da Mulher seja o respeito nos 365 dias do ano.